Assoprou o cartucho e passou a mão por cima do console. Era um velho
hábito que remontava mais de dezessete dias. Tirava de cima do console,
ainda com cheiro de novo, poeiras imaginárias. Aquele retângulo preto
com um detalhe vermelho, meio bordô meio grená de tão bonito que era nem
sabia o nome da cor. Ganhou da vó no Natal e 1990 já parecia tão longe e
obsoleto diante da tela da TV que agora brilhava com 32 cores
simultâneas das 64 disponíveis.
Começou a jogar Alex Kidd e era
como se tivesse jogado aquilo a vida inteira. Estava indo bem, estava
indo longe pegando motinho e ganhando no joquempô. Pensava em papel, o
cara colocava pedra. Pensava em tesoura, o cara colocava papel. Aquilo
estava indo bem demais. Nem o calor de 42 graus do verão das férias
podia incomodar. Para ele, ali, a sensação térmica era de 38 graus,
fácil. Depois de oito horas seguidas de jogo ele já estava muito longe,
porém algo começou a incomodar. Os trânsitos intestinais indicavam que
atrás daquele controle havia um ser vivo.
Hoje em dia qualquer um
esticaria o dedão e meteria um “pause” na tela. Entretanto, o Master
System nunca te daria esse luxo. Pausar o jogo quando se joga sozinho é
um luxo inimaginável. Mesmo pedir alguém pausar para você poderia
acarretar em humilhantes favores a serem cobrados posteriormente. Só foi
descoberto às oito da noite quando seus pais chegaram em casa e
encontraram o corpo caído tentando se esticar em direção ao console.
Desmaiado. Estava desidratado e não conseguiu controlar o próprio
intestino.
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